segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Nova Acrópole, a seita (por Pepe Rodriguez)

Nova Acrópole, a seita
Pepe Rodriguez

A Nova Acrópole começou a ser descoberta como uma organização neonazista ou de caráter nazista após a elaboração de uma reportagem chave com vários desdobramentos de Pepe Rodriguez. A reportagem foi publicada em 13 de maio 1985 na revista Tiempo na Espanha. Eis a tradução do texto.

Para obtê-la original clique aqui. Essa reportagem gerou muita polêmica e reação contrária da Nova Acrópole, que no entanto, perdeu todas as ações judiciais contra o jornalista e ainda sofreu intervenções judiciais e policiais levando a algumas condenações. Mas segue a matéria traduzida.

A Comunidade de Madri subvenciona uma seita nazista






Castelo de Santiuste, propriedade de Enrique Calle, local de encontro dos membros da Nova Acrópole.



A Administração socialista subvenciona a associação de caráter cultural e juvenil Nova Acrópole, uma vez que os informes do Ministério do Interior assinala o objetivo nazista da citada organização, que vê seus cofres encrementados anualmente pelo Governo autônomo de Madrid, entre outros organismos de caráter oficial.

No dia 5 de março passado – Ramiro Pinto – ex-membro da Nova Acrópole – fora convidado a dar uma palestra sobre sua experiência no Instituto Superior de Filosofia Valladolid ( no marco de 1 ano de patrocínio pela Delegação Municipal de Juventude e pela Fundação Friederich Ebert). Mas Ramiro não pode se apresentar, estava em “paradeiro desconhecido”. Onze dias antes participara de um debate, junto com outros ex-membros de diversas seitas transmitido pela televisão.

A reação da Nova Acrópole não se fez esperar: um dos líderes da seita advertiu ao pai de Ramiro o mal estar que as palavras de Ramiro e comentou que “em um grupo sempre há gente incontrolável que não se sabe o que podem vir a fazer”. A ameaça velada não podia estar mais clara, mas a Polícia se limitou a aconselhar que Ramiro “desaparecera por uns dias”.


Cerimônia dos Jogos Olímpicos acropolitanos. (vejam que imponente o símbolo da NA)

Nova Acrópole se apresenta como uma organização cultural e humanista, registrada no Ministério do Interior com o número 14.741; em seu expediente não figura nenhum de seus dados que, inutilmente, se amontoam em outro departamento do mesmo Ministério e que segundo tais se cataloga como de caráter nazista. Mas tal perfil político não é obstáculo para que a Administração socialista financie algumas de suas atividades. Nova Acrópole através de suas ramificações Asociación Juvenil La Tabla e Círculo de Amigos da Nova Acrópole (dedicada a terceira idade) consegue subvenções como por exemplo, a que lhes dá Área de Juventud de La Comunidad Autônoma de Madrid, um aporte de 20.000 pesetas anuais.

"No Castelo de Santiuste, na província de Guadalajara, Nova Acrópole oculta um bom número de armas"

La Tabla (A Távola no Brasil) – criada em 1980 – relaciona entre suas atividade acampamentos, excurções, escola de teatro, oratória infantil, música, dança, artes marciais, etc, “coroando todos” – diz um de seus folhetos – "com uma profunda formação ética". Os membros da La Tabla são adolescentes em idades entre sete e catorze anos e sua 'educação ética”se alimenta dos conceitos como os seguintes extraídos do livro Cartas a Délia e Fernando: ‘Para isso lhes ensina ética e bons costumes; para ele se sensibiliza vossos corações em respeito a todos os seres viventes e lhes diga que é maior crime matar a um cão do que um homem por uma causa nobre... O “não matarás” deve ser mantido:até que não seja estritamente necessário.” (página 145). No Manual do Dirigente (texto secreto usado somente pelos líderes da seita) na sua página 86, seu autor, Angel Livraga, fundador da seita, propõe que a seus discípulos se deve “estimular a todos a vocação pelo risco e a depreciação pela vida física, pelo qual se dará a honra. “ Não em vão, todos um dia passarão ao Corpo de Segurança – cujo lema é “ saber orar, saber morrer” – semente daquilo que um dia deveria ser o exército acropolitano.


O Organograma Secreto
Nova Acrópole é uma estrutura piramidal muito rígida e oculta aos próprios adeptos de base (“velada como se vela a luz muito forte diante dos olhos de um recém-nascido”, se diz no Manual do Dirigente). Os mandos têm uma dupla nomenclatura: uma interna e outra externa. A ponta ocupa o comando Mundial (externamente denominado fundador ou diretor geral), que é Jorge Angel Livraga Rizzi – filho de uma família italiana que foi para a Argentina quando Mussolini caiu. – Segue o Guardião dos Selos (subdiretor geral) , os Comandos Continentais ( diretores continentais), Comandos centrais (diretores nacionais), secretários nacionais federais (mesma nomenclatura externa), Comandos Unificados de Zona (encarregados de região), e os chefes de filiais.



Délia Steinberg Guzmán, responsável pela organização na Espanha e no resto da Europa


O Comando Central da Espanha, ao mesmo tempo , Comando Central da Europa é a argentina Délia Steinberg Guzman – instalada na Espanha desde 1972 para expandir a seita pela Europa – que afirma com o melhor dos seus sorrisos:“Nossa tão gloriosa estrutura pára-militar é que temos um conjunto de meninos que se dedicam à segurança da estrutura, que nos parece bastante apropriado para a quantidade de gente que participam de nossos atos”. Tal resposta diplomática é bem distante do parágrafo que transcrevemos, pertencente ao boletim interno do Corpo de Segurança de dezembro de 1977 e que se diz: “Todavia estamos longe da guarda da Roma Imperial e do exército de Napoleão, somos muito consciente disso, mas devemos saber que somos o embrião de uma e de outra, que chegará um dia que o Corpo de Segurança será um grande exército, uma grande força.” O doutor Antônio Alzina, que se auto-convidou para a entrevista –esquecendo-se de se apresentar como o chefe de inteligência que é – traz sua pequena cortina de fumaça ao afirmar : “não somos nem facistas, nem nazistas, nem comunistas, nem democratas, nem nada”. Se vê cortado, olhado por Délia como buscando permissão para seguir falando e conclui orgulhoso: “somos acropolitanos”.

No boletim interno correspondente a janeiro de 1976 se lê sobre um “eleitorado que há mais de quarenta anos arruinou a Espanha e da qual não salvou a ideologia providencial de um José Antônio e a Ação eficaz de um Francisco Franco”. Vê-se claro que pelo menos não são nem comunistas e nem democratas. Tendo em conta, ainda, as linhas doutrinárias de Livraga, seu amor pelos uniformes (calça azul e blusa branca, das Brigadas Femininas; calça marrom e camisa caqui, das Brigadas de Trabalho; e camisa e calça pretas do Corpo de Segurança), pelos braceletes, pelos estandartes, pela saudação com o braço levantado, pela simbologia (dizem que seus símbolos estão em descanso, mas, quando chegar o momento de atuar a roda da Brigada de Trabalho se transformará na Suástica, e a águia acropolitana estenderá suas asas como a águia nazista), não deixa muita margem para a dúvida. A Administração está financiando as atividades de um grupo neonazista ou de caráter nazista.

Délia faz cara de blefe quando se fala de armas e de treinamento físico pára-militar. “Eu, pessoalmente já convidei as autoridades a revistarem a sede quando quiserem. Não se pode ser filósofo como eu me coloquei com uma postura tão radicalmente oposta, com uma atividade que você está me colocando. Essas atividades realmente não existem.”


Um castelo com armas

Délia e Livraga vivem em suas casas privadas longe da sede na Gran Via de Madri. Um de seus ex-colaboradores mantêm uma opinião distinta: “A JAL – assim se conhece Livraga – encanta jogar com os soldadinhos e eu vi na parte privada da escola quatro ou cinco pistolas mas ignoro de que eram. Toni Chao era seu guarda-costas e sempre levava uma pistola calibre 9 mm sob o braço. Também vi como Jal levava uma pistola pequena (se supõe de calibre 7,22mm) no bolso interno do casaco. Em 1980 Tony viajou expressamente para a Bélgica para comprar uma determinada pistola que Jal havia indicado. De todas as formas não se tem dinheiro para ter armas em série, o que lhes encantaria. E não creio que os jovens se entretenham com armas. Jal não é tão idiota para se arriscar que algum garoto comentasse fora da estrutura”.


"A sede internacional da organização está em Bruxelas e conta com 10.000 adeptos repartidos em 34 países"


Estes fatos remotam 1981. Neles é peça chave Antonio Chao Fernandez, um homem vinculado a Legião e círculos militares, que trabalhou como jornalista na TVE e que pertence à Nova Acrópole desde 1973, da qual foi secretário nacional machado – ser um Machado que só é concedida por Livraga em virtude de méritos suficientes – até muito pouco tempo (agora se diz aposentado, mesmo mantendo contatos freqüentes com Délia e Livraga) foi casado com a Comando Central de Luxemburgo e teve em seu cargo fazer contatos exteriores especiais – à margem das chefias de inteligência – com os líderes máximos. Chao comenta que teve licença para arma curta até oitenta ou oitenta e um, mas que ao envelhecer entregou também sua pistola. Contudo, em fevereiro de 1980, Chao comprou um revolver calibre 7,22 mm na loja de armas Ramón Alonso; arma que segundo o armeiro, Chao o devolveu depois de somente alguns meses para tentar vendê-la. Chao também foi o guardião de Santiuste, castelo que pertence a Enrique Calle Donoso, simpatizante da Nova Acrópole – e conhecido na seita como el Duende – que o cede ao grupo para que façam cursos e atividades em troca de que a Brigada de Trabalho o reconstrua. Enrique Calle comprou esse castelo em Riba de Santiuste (perto de Singueza) no mesmo lote que Galvez de Sorbe e o da Alcolea de las Peñas. Pagou umas 130.000 pesetas por cada um em fevereiro de1973.


Das ruínas de Santiuste agora já se ergue um castelo francamente bonito, construído graças aos jovens acropolitanos, que se esforçaram pelo Ideal. Apesar de Délia assegurar que no inverno jamais vão ao castelo fazer atividades, no dia 26 de janeiro do ano passado foram ao castelo uns 30 adolescentes da filial de Zaragoza, momento o qual, esse jornalista pode fazer uma pequena visita pelo seu interior. Em uma dependência, cercada por uma parede havia uma carabina Remington e outra Winchester, ambas com o calibre 22 mm e uma de ar comprimido. Como munição havia cerca de setenta ou oitenta balas do calibre 22mm e outras poucas de 9mm. Na parede ao lado havia um painel decorativo formado por umas vinte facas, um facão, um fusil Mauser, um Cetme sem culatra e diversos antiquarias.

Decoração "filosófica" de uma das paredes do castelo


Essas armas estavam ao alcance de qualquer adolescente que podia chegar a elas só passando as portas que as ocultam. Em outras dependências encontramos escudos abaulados e espadas sujas devido ao treinamento de Cavaleiros dos membros mais jovens do Corpo de Segurança e da La Tabla.


Uma Multinacional com um Ideal
Nova Acrópole com sede internacional em Bruxelas está instalada em 17 países europeus e outros tantos americanos, e conta com 10.000 adeptos. Na Espanha em 27 províncias e são ao redor de 1.000. Seu ideal e sua meta é fazer de cada homem um acropolitano, objetivo idêntico que Hitler perseguia com seu modelo de raça ariana. Livraga no seu Manual do Dirigente (página 50), explica: “Essa estrutura se alimenta de homens e aos aptos se transfunde ao grande corpo, em sua grande alma, para torná-los, de alguma forma, superhomens. Essa é a tal dolorosa lei. Os inaptos devem ser deixados para trás. Eles serão apanhados por alguma estrutura pequena que come carne podre.'

Sobre as crianças, na Nova Acrópole se pensa que deve-se entregá-los aospedagogos (instrutores da seita, evidentemente), já que nem todos os pais são aptos para educá-los corretamente. Se recomenda que “as crianças estejam convenientemente uniformizados ou pelo menos vistam uniformes apenas dentro dos nossos recintos” . Os professores e outras pessoas auxiliares devem também ir uniformizados. A manipulação a que se submete as crianças está claramente desenhada no Manual do Dirigente.


Militantes da seita descarregando lenha nas portas do castelo que devem reconstruir.

Estes, como todo o resto, são usados como mão de obra gratuita. O artigo oitavo do Regulamento para Membros impõe como se deve participar do trabalho formativo por pelo menos 12 horas mensais e ainda; “O trabalho formativo pode ser substituído ao todo ou em parte por uma cota extra de maneira proporcional. Cada hora de trabalho realizada incrementará a cota em 8%.” Cada adepto ainda paga quantidades distintas sob o conceito de cotas e cursos. Sobre a rígida disciplina o artigo dez do mesmo regulamento é eloqüente, que obriga a “abster-se de toda a crítica ao dirigente, instrutores e companheiros. Aos primeiros, em todas as questões; aos últimos ao que se refere a questões pessoais". Igualmente eloqüente sobre sua ideologia é o parágrafo seguinte, extraído da página 106 do Manual do dirigente, em que se diz que, em caso da estrutura parar seu crescimento se deve “canalizar a propaganda interna a um passo adiante, e se for imprescindível, assinalando a alguma ideologia exterior como o materialismo dialético, em alguma de suas formas políticas mais agressivas, como ao inimigo que com sua ação debilita a consciência, fazendo-se indiretamente responsável pela paralização e exagerando o perigo que essa ideologia representa, de maneira imediata, para a Nova Acrópole". Sobre seu sectarismo este outro parágrafo do mesmo manual: “um convite aparentemente inocente para seguir cursos e conferências é mais proveitoso do que a exposição violenta de símbolos misteriosos ou sentenças enigmáticas”. Traduzindo, a parafernalha nazista fica para a intimidade. No externo se vende cultura, e no interno criam o ideal.

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